quinta-feira, 14 de julho de 2022

ENCONTROS EXPANDIDOS


 

Eu vi o som e a cor do encontro  

O acordo das cores que pintam as paisagens que nos habitam 

Eu vi o som  

e ouvi a cor do sol do seu sorriso esperto 

Teu eu diz perto ao meu 

A nossa troca de experiências desperta, desata 

Não somos nó: somos nós! 

Decolonizando os gestos 

olhares, toques, narrativas que passam por lugares 

Performamos a energia das ruas que nos percorrem...

memórias dos nossos corpos semoventes 

No ser, no estar 

A paz na fala é clara, a luz se manifesta 

Sua fala calma, chama e a minha, clama na alma 

Juntos bebemos o feitiço da noite em copos de vida 

Do Pantanal à Lagoa: somos encontros expandidos 

Comemoramos, comemos o instante que nos consubstancia 

Conexões, beijos, risos, surpresas, mistérios, imersos na imaginação do tempo 

Somos templo? 

Juntamos gentes que nos atravessam: conhecidas, aleatórias, contraditórias... 

Bruxos na dança das horas que se vão furtivas 

Ora arrazoados, ora desvairados 

Manifestos na marcha pela liberdade

Nossas corporeidades, livres, empunham a mesma bandeira.  

Entre o verso e o universo, somos passos nos espaços em expansão 

Eu quero que a poesia dos encantos expedidos nos abrace 

Presencialmente  ou nos sentipensamentos que se liquefazem e nos conectam. 

Ouvi a imagem onírica de um rio grande do sul que deságua cores e luzes na baía. 

Eu vi o som de ti em mim…




Florianópolis, 11 de julho de 2021, numa madrugada qualquer...

Chuva de noite



Ainda é noite aqui, na ilha

E aí? 

Aqui é noite e chove copiosamente...

Da janela do meu quarto, ouço a chuva levando embora cascalhos, encontros,

imundícies, folhas, meus planos de sair hoje à noite...

Tudo se vai, na enxurrada, para algum lugar que não sei onde.

Da janela desse quarto vazio de tempo

e sentido, 

Contemplo inerte a chuva de noite: 

vertiginosamente melancólica.

Chove lá fora, eu sei

E chove também, 

aqui dentro, 

em mim...

Crime Perfeito



Numa tarde mole dessas, de inverno

Na praia, um encontro combinado 

Você sentado na areia, capacete ao lado

Ali, na praia vazia de gente, mas, de silêncio marejado

Parado

Você, sozinho: de solitude acompanhado

parado

Na mão, uma cerveja... Não me vês. Sim, embora eu te veja

Parado

Olhando para o mar...

Parado

Esperando um por-do-sol num espaço-tempo espraiado

Parado

(Distante...)

A poesia sorrateiramente chega. Para, atrás de ti e apunhala o instante.

Pelas costas, num gesto inesperado, um golpe breve

E você, obnubilado pelo ocaso, soçobra em pensamento: será que algum dia viveu antes de morrer de amar?

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Onde está?




Na lata velha de tinta que pintou o muro de esperança?
 
No orvalho que molha as folhas com o suor da noite (cansada de tanto anoitecer)?

No efêmero olhar de quem deseja em secreto?

Em uma caneca branca de café sobre a mesa da espera?

No assobio resignado do trabalhador que caminha de manhã bem cedinho?

Presa na camisa vermelha, molhada de memória, no varal do tempo?

Nos abraços que se evaporam no instante eterno da despedida?

Atrás do vidro embaçado da janela do quarto?

Na agonia de quem nada pode fazer diante do pragmatismo das horas?

Na solidão dos poetas inglórios?...

A poesia prefere os lugares absurdos

Como esse teu cheiro doce que mora em meu pensamento.

domingo, 31 de janeiro de 2021

Há mar de amar

 

 

As águas do mar dançam sob o sol

No céu, um azul onírico azuleja o dia

Mar ritmos

Na areia molhada, os passos seus

Eparsos passos

Espaços de tempo marítimo

O vento brincante sopra os seus cabelos

e traz um som de uma canção distante,

perdida na memória de alguma coisa que você não sabe, apenas sente

O sol em seu corpo de maresia

Sal e ouro

Os olhos mergulham

segredos verdes nas águas salgadas

Sagradas lágrimas

Ver de mar a mar o infinito que ultrapassa o horizonte

Um mar de sentimentos inunda os olhos

Quanto mais ver-te

Mais verde o olhar

O mar...

Há mar de mais amor

O amar...

De se jogar no mar

Amar demais...

Tatuado em teus pés, as ondas que desenham o caminho para o mar além

e que desaguam saudades de algum lugar

para onde o amor te quer de volta.

Para além-mar?

Para onde o amor quer te levar?

Uma Magia do Caos ou a biomemória dos corpos extasiados


 

O meu desejo tem pressa de ti

Aperto o passo à tarde

Ainda é cedo

Chego na hora

Em um leito do Rio, me deito.

Leito

Leite

Copo

Corpo

Terra fertilizada pela volúpia

Elemento terra

Tudo de lindo

Delícia

(De)leite

Brotas em meu pensamento

como fava crescendo na parede do quarto da memória

Sigilo

Portas trancadas

Partes truncadas

Corpos se procuram em meio à fumaça

Suor

Saliva

Semente

O som sibilante do silêncio cúmplice: nossos olhares se procuram

O que eles encontram?

Vontade é a metade que arde

Na outra metade a gente faz arte 

Somaos um todo

Somos a parte de um tempo que é só seu e meu

Sol, praia, pele da poesia descama... 

Tudo em você molha de há mar

O meu desejo tem pressa, mas estou indo pra longe de ti

Tão perto passo, de ti!

É tarde, mas, não mais é segredo.

Quero te abraçar, mas meu tempo acaba.

Eu fui

Mas agora, vôo

16h20: agora (aqui) sou ilha

Aí (nessa hora), você é Bahia

Será que se lembra de mim?

Como me esquecer de você?

Diz-me que vem quando for frio

e eu sigo sonhando com o teu incandescente corpo  

Queimando o vazio

Na cama

Trazendo calor

Quando a saudade arder em cio

beber o suor com que me enebrio

Quero-te brincante entre lençóis,

menino vadio

Fazendo amor em nós

Dois sóis

segunda-feira, 13 de abril de 2020

A praça vazia e o poeta


Uma estrela no céu da memória
brilha alta, verdadeira
O país chora sua triste sina, inglória
Lá vem o cabisbaixo Brasil
descendo a ladeira.
O poeta passa pela praça vazia:
Sem gente, sem pombo, sem poesia...
Só uma solitária alma, vagando
pedinte, sem eira nem beira.
Será que a felicidade é uma quimera
nessa pátria sem bandeira?
Minha esperança também chora
diz que vai embora
sente a falta do Moraes Moreira.






Em 2020 (o ano que nunca existiu).