O tempo fez chover noite em meu olhar.
Não veio tempestade de relâmpagos,
mas uma chuva silenciosa,
dessas que escurecem por dentro
e deixam a alma escutando o próprio eco.
Carrego estrelas com lágrimas represadas,
constelações suspensas na beira dos cílios,
esperando o instante de transbordar
tudo aquilo que as palavras
jamais seriam capazes de semantizar.
Há sentimentos que recusam a palavração,
que habitam um vocabulário de silêncios,
onde cada ausência pesa mais
que qualquer verso pronunciado.
E depois de finda a noite, o que será?
Tenho medo do que virá
depois do fim dessa noite.
Toda noite termina, dizem.
Mas ninguém explica
o que acontece com a escuridão
quando ela deixa o céu
e resolve permanecer em nós.
O que será depois do fim?
Será aurora, ou apenas outra forma de sombra?
Será que o sol saberá reconhecer
o rosto de quem atravessou tantos crepúsculos?
E o que será em mim?
Talvez reste uma cicatriz
aprendendo a florescer em luz.
Talvez o vazio descubra
que também é um lugar de nascimento.
Ou talvez eu continue caminhando,
feito rio que desconhece a própria foz,
até compreender que algumas noites
não existem para apagar as estrelas,
mas para ensinar que elas sobrevivem
mesmo quando ninguém consegue vê-las.
E, se esse instante chegar,
quando finalmente transbordarem
as lágrimas que o tempo aprisionou,
quem sabe eu descubra
que o fim da noite nunca foi o fim de mim,
mas o primeiro nome
de uma manhã
que ainda não aprendi a dizer.
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