segunda-feira, 14 de outubro de 2024

Negra, minha cor. Minha dor, negra

Negra...

A minha cor não passa despercebida pelo olhar branco.

Meus passos tem a minha cor e são vigiados, no banco, na farmácia, no restaurante...

Sim! Ainda que neguem, eu sei, me seguem...

... no shopping center, sem ter razão.

E sinto, eu vejo, eu ouço, eu sei que me perseguem

Suspeição ambulante, tensão constante, 

Na fila do pão, na rua, no bar, na loja de inconveniências

Apreensão da fruição, frustração da fluição.

O branco se incomoda com a minha cor, me vê abjeto

A afetação do desafeto tem cor em manifesto. Importa!

Minha cor também marca a dor que me causa o prazer branco.

Todas as vidas humanas importam! Mas, eu não sou uma vida humana?

Eu suo mas não soam o que sei quem sou

Com ou sem complemento, me verbalizam objeto

De que?

Medo? Ódio? Asco? Desprezo? Dó? Desejo? ...

De quem?

A minha cor confunde os sentidos e os sentires das pessoas brancas

Que me cobram satisfações: de onde? Para que? Para onde? Quem? Você?

Como assim?

Minha cor é malvista, mal-vinda, malquista. É maldita, a minha cor.

Não tentem me convencer a ater vida no meu ser!

Para o branco - que se sabe pessoa - minha cor, mesmo vestida de humanidade,

está despida, descrida, 

de dignidade destituída.

O Estado é embranquecido e cobra da minha cor: “documentos. por favor!”

Satisfações, reverência ao seu poder soberano que julga, sentencia

e me pune de morte ou de viver com medo: qual a diferença?

Qual a deferência?

A verdade nua e crua: é a carne negra mercantilizada, mão de obra barata,

massa de manobra, palavra solta na promessa branca de gravata.

Tudo bravata!

Uma vida que arde no fogo da suspeição

Queima de arquivo no quilombo, na favela, na escola

histórias, culturas, memórias negras se tornam cinzas

Há racismo, mas ninguém é racista: crime hediondo perfeito! 

Quem prega a cota racial é quem paga a conta nacional por uma dívida histórica

que não é sua?

Quem não deve não teme, dizem os brancos. E eu digo: ainda que a dívida seja branca,

é a minha cor que sempre é cobrada.

Ser negro é, ainda que não deva, tremer e temer pelo que destinam à sua cor

Ser branco é não ter cor, é ser normal, é não temer, mesmo devendo, e ainda perceber

dividendos! Sem dúvida, o branco lucra mesmo na dívida.

Seja pelo benefício branco da dúvida,

Seja pelo branco privilégio da impunidade: imunidade e humanidade, no Brasil,

há séculos, tem uma só cor, isso é claro!

Todos os dias tentam apagar a minha cor com a borracha branca da colonialidade.

Por isso que, todos os dias, minha cor precisa ser reforçada pela tinta ancestral

da memória que colore a paisagem da minha história.

A minha cor impulsiona a minha voz,

expande a minha consciência,

aguça o meu espírito,

revigora o meu coração.


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