Negra...
A minha cor não passa despercebida pelo
olhar branco.
Meus passos tem a minha cor e são
vigiados, no banco, na farmácia, no restaurante...
Sim! Ainda que neguem, eu sei, me
seguem...
... no shopping center, sem ter
razão.
E sinto, eu vejo, eu ouço, eu sei que
me perseguem
Suspeição ambulante, tensão
constante,
Na fila do pão, na rua,
no bar, na loja de inconveniências
Apreensão da fruição, frustração da
fluição.
O branco se incomoda com a minha cor,
me vê abjeto
A afetação do desafeto tem cor em
manifesto. Importa!
Minha cor também marca a dor que me
causa o prazer branco.
Todas as vidas humanas importam! Mas,
eu não sou uma vida humana?
Eu suo mas não soam o que sei quem sou
Com ou sem complemento, me verbalizam
objeto
De que?
Medo? Ódio? Asco? Desprezo? Dó? Desejo?
...
De quem?
A minha cor confunde os sentidos e os
sentires das pessoas brancas
Que me cobram satisfações: de onde?
Para que? Para onde? Quem? Você?
Como assim?
Minha cor é malvista, mal-vinda,
malquista. É maldita, a minha cor.
Não tentem me convencer a ater vida no
meu ser!
Para o branco - que se sabe pessoa -
minha cor, mesmo vestida de humanidade,
está despida, descrida,
de dignidade destituída.
O Estado é embranquecido e cobra da
minha cor: “documentos. por favor!”
Satisfações, reverência ao seu poder
soberano que julga, sentencia
e me pune de morte ou de viver com
medo: qual a diferença?
Qual a deferência?
A verdade nua e crua: é a carne negra
mercantilizada, mão de obra barata,
massa de manobra, palavra solta na
promessa branca de gravata.
Tudo bravata!
Uma vida que arde no fogo da suspeição
Queima de arquivo no quilombo, na
favela, na escola
histórias, culturas, memórias negras se
tornam cinzas
Há racismo, mas ninguém é racista:
crime hediondo perfeito!
Quem prega a cota racial é quem paga a
conta nacional por uma dívida histórica
que não é sua?
Quem não deve não teme, dizem os
brancos. E eu digo: ainda que a dívida seja branca,
é a minha cor que sempre é cobrada.
Ser negro é, ainda que não deva, tremer
e temer pelo que destinam à sua cor
Ser branco é não ter cor, é ser normal,
é não temer, mesmo devendo, e ainda perceber
dividendos! Sem dúvida, o branco lucra
mesmo na dívida.
Seja pelo benefício branco da dúvida,
Seja pelo branco privilégio da
impunidade: imunidade e humanidade, no Brasil,
há séculos, tem uma só cor, isso é claro!
Todos os dias tentam apagar a minha cor
com a borracha branca da colonialidade.
Por isso que, todos os dias, minha cor
precisa ser reforçada pela tinta ancestral
da memória que colore a paisagem da
minha história.
A minha cor impulsiona a minha voz,
expande a minha consciência,
aguça o meu espírito,
revigora o meu coração.