segunda-feira, 28 de outubro de 2024

OCASO SOLAR E O DELÍRIO EM TARDE SER

Deus?
Os mistérios do mundo?
O tempo?

Me pergunto o que perturba o meu sentipensamento e me deixa assim, parvo, em suspensão sinestésica.

De algum lugar que não sei quem sou ou sinto, me vem a resposta, como um vento de raio que a tudo devassa e leva de arrasto:

o que me confunde as colunas do espírito e me rouba a paz é esse teu olhar fugaz, exitante, que me olha como quem vê medo e desejo dançantes, pactuados em um acordo tácito...

No entardecer dos sentidos, valsando em compasso, numa cumplicidade silente,
o instante infinito do espanto de vidas que se reconhecem no encontro.





"Perto de você me calo. Tudo penso e nada falo. Tenho medo de chorar..." (Último Desejo. Noel Rosa)

terça-feira, 22 de outubro de 2024

Quem dera...

Minhas mãos percorrem o teu corpo

Ora foge de mim, ora me deseja 

Como um ébrio andando por uma rua desconhecida, 

perdido, a vagar pela noite, procurando se encontrar

Eu te encontro, me encanto e te beijo 

É o meu beijo querendo que você me veja

O tempo é fugaz e se esvai, pouco a pouco,

Como areia fina na ampulheta das horas de agonia 

Você precisa ir e eu querendo ficar mais com você

Quem dera... Ficar em você...

Na cama, em lençol de acalanto, te vejo dormir, tão frágil, tão lindo! 

O sol da manhã, na janela: em nós dois, sós

Você com suas músicas, seu olhar de menino que me atinge em cheio:

arqueiro e seu dardo certeiro dilacerando o meu coração

Ontem, você chegou e trouxe a madrugada em seus pés 

hoje você vai e me deixa o vazio da noite sem o brilho da tua presença

Como o globo espelhado na pista de dança onde fico, sozinho

Sem par, sem paz, sem você.

Queria que o tempo parasse

Quem dera...

Queria que você soubesse o quanto te desejo

Meu beijo beija o teu beijo.

Teu beijo é o começo de tudo que se torna poesia e beleza

Quem dera tua presença não fosse uma breve e efêmera surpresa.

Quem dera tudo fosse certeza.

segunda-feira, 14 de outubro de 2024

Negra, minha cor. Minha dor, negra

Negra...

A minha cor não passa despercebida pelo olhar branco.

Meus passos tem a minha cor e são vigiados, no banco, na farmácia, no restaurante...

Sim! Ainda que neguem, eu sei, me seguem...

... no shopping center, sem ter razão.

E sinto, eu vejo, eu ouço, eu sei que me perseguem

Suspeição ambulante, tensão constante, 

Na fila do pão, na rua, no bar, na loja de inconveniências

Apreensão da fruição, frustração da fluição.

O branco se incomoda com a minha cor, me vê abjeto

A afetação do desafeto tem cor em manifesto. Importa!

Minha cor também marca a dor que me causa o prazer branco.

Todas as vidas humanas importam! Mas, eu não sou uma vida humana?

Eu suo mas não soam o que sei quem sou

Com ou sem complemento, me verbalizam objeto

De que?

Medo? Ódio? Asco? Desprezo? Dó? Desejo? ...

De quem?

A minha cor confunde os sentidos e os sentires das pessoas brancas

Que me cobram satisfações: de onde? Para que? Para onde? Quem? Você?

Como assim?

Minha cor é malvista, mal-vinda, malquista. É maldita, a minha cor.

Não tentem me convencer a ater vida no meu ser!

Para o branco - que se sabe pessoa - minha cor, mesmo vestida de humanidade,

está despida, descrida, 

de dignidade destituída.

O Estado é embranquecido e cobra da minha cor: “documentos. por favor!”

Satisfações, reverência ao seu poder soberano que julga, sentencia

e me pune de morte ou de viver com medo: qual a diferença?

Qual a deferência?

A verdade nua e crua: é a carne negra mercantilizada, mão de obra barata,

massa de manobra, palavra solta na promessa branca de gravata.

Tudo bravata!

Uma vida que arde no fogo da suspeição

Queima de arquivo no quilombo, na favela, na escola

histórias, culturas, memórias negras se tornam cinzas

Há racismo, mas ninguém é racista: crime hediondo perfeito! 

Quem prega a cota racial é quem paga a conta nacional por uma dívida histórica

que não é sua?

Quem não deve não teme, dizem os brancos. E eu digo: ainda que a dívida seja branca,

é a minha cor que sempre é cobrada.

Ser negro é, ainda que não deva, tremer e temer pelo que destinam à sua cor

Ser branco é não ter cor, é ser normal, é não temer, mesmo devendo, e ainda perceber

dividendos! Sem dúvida, o branco lucra mesmo na dívida.

Seja pelo benefício branco da dúvida,

Seja pelo branco privilégio da impunidade: imunidade e humanidade, no Brasil,

há séculos, tem uma só cor, isso é claro!

Todos os dias tentam apagar a minha cor com a borracha branca da colonialidade.

Por isso que, todos os dias, minha cor precisa ser reforçada pela tinta ancestral

da memória que colore a paisagem da minha história.

A minha cor impulsiona a minha voz,

expande a minha consciência,

aguça o meu espírito,

revigora o meu coração.


FIM DE FESTA OU A NOITE ACABOU

 

A luz do salão de festas se apagou dentro de mim

Tudo agora é silêncio e vazio

Não há mais dançantes em seus sorridentes movimentos filauciosos

Risos, músicas, luzes ornamentando o ambiente de alegria e êxtase

Tudo agora é silêncio e solidão

As pessoas se foram e com elas os motivos de celebrar a vida

Automóveis partem do estacionamento, passos se vão embora, para longe

Tudo agora é silêncio e melancolia

Os brilhos da noite, os perfumes que desfilavam entre os convivas

As mentiras, os desejos, as promessas, os segredos, as ostentações

Tudo agora é silêncio e só.

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

La calle más grande es el corazón.

Los recuerdos mediterrâneos

Mojan y lavan de añoranza a mis pies al atardecer.

Calles, barrios, caminé mucho por un largo camino

A través de la historia.

Los colores andaluces me llenan el alma: ¿de dónde vienen?

Vinos, sabores, colores,

caminos diseñados por personas y culturas

Que hacen de España un lugar hecho de lugares

reales como los colores del oro y la sangre 

que ondean en su bandera.

terça-feira, 1 de outubro de 2024

O motorista de aplicativo e o existencialismo

- Boa tarde, senhor
Qual seria ou seu destino?
(eu, silêncio profundo, encerrando o sentimento do mundo em mim)
- Só sei que estou aqui, meu senhor,
No ponto de partida,
Tentando não chegar atrasado
No meu ávido encontro
com a vida


Traduz ir-se

Metade é arte
Outra metade 
É a meta de ser 
Parte inteira
À parte?
De tudo, quase...
Aparte?
De nada, todo.
Metade é arte
Outra metade
Menta,
Arde

Há Sóis

Sonhando com o teu incandescente corpo 

Queimando o vazio na cama

Trazendo calor

Quando a saudade arder em cio

Beber o suor com que me enebrio

Quero-te brincante entre lençóis

Menino vadio

Fazendo amor em nós

Dois sóis


XEQUE-MATE!

Depois de todos os desencontros - desencantos tantos! 

- você achou melhor nos isolarmos e pronto: 

cada um para o seu canto, sem acalanto.

E o pássaro-tempo, que voa mais depressa que o pensamento, em lamento, nos vê do alto: 

nós, sem voz, cada vez mais distantes, organizando na estante dos sentidos 

os silêncios que gritam.

Xeque-Mate!

Era um jogo? 

Quem ganhou? 

Não sei. Não sei

Só sei quem perdeu: 

eu, que não sei jogar e que só me joguei.

Você, a chuva e eu, o solo seco de Brasília: 

faz tempo que não te beijo!...

Ontem éramos elo, hoje, nossos lábios distantes como nunca dantes

Sigo falando o teu nome, voando alto em meu pensamento 

caminhando pela estrada das horas. 

E você, pensando muito em mim e nos desejos nossos...

(Nós na garganta seca...)

Depois de todos os desencantos 

- desencontros tantos -

você nem sentiu e nem falou mais nada...