domingo, 2 de fevereiro de 2025

Memória Pioneira: entre a Vila e a Morte

Lago Paranoá

Paranóia noir

Logo paira no ar os cheiros e cores do crepúsculo

A linha do tempo, o espaço, tudo planejado: lago artificial

Lago Lego?

Nado ou nego?

Lágrimas doces do planalto inundam a Vila Amaury

Memória é sentimento submerso

Cidade e saudade na profundidade

Rádio comunitária, parque de diversões com roda gigante,

ruas estreitas forma e sem luz, um comércio aqui, outro ali,

um pequeno cinema com algumas cadeiras e projeções,

bares para embriagar angústias e incertezas,

casas feitas de madeira velha, suor e esperança candanga

fugindo da miséria, enganados pela grande mentira do capital...

Restos de grandes construções da capital,

sobras de obras, fragmentos de vida...

Tudo em ruínas submersas nas águas da ilusão

que só podem ser vistas por quem consegue mergulhar

no mais escuro e profundo da história... 

Aqui, as águas também são setoriais 

e só não molham o seco sorriso das empreiteiras. 

Havido o progresso, há vida em processo?

E o povo, de lá? Para onde foram todos com seus pertences e desespero?

Quem sobreviveu à morte, ainda vive o presente

embrulhado em papel de futuro incerto?

Passado-presente: tempo excerto...

Em Brasíllia quem sabe, ao certo, se está errante ou perto?


sábado, 1 de fevereiro de 2025

Pelas ruas

Na SQN, ouvi barulho de chuveiro e gente tomando banho em algum apartamento aqui perto

Saí do Espaço Cultural Mapati e passei pela W3 Norte: à noite a solidão enche as ruas

esvaziadas de alma e sentido.

Uma melancólica lanchonete de rua onde o vendedor, solitário e triste, 

assistia na TV,  a vida passando no telejornal local.  

Apertei o passo, voltando para casa, estava começando a chuviscar...  

Ontem, fui à padaria e, quando voltei, passei por um pé frondoso de dama da noite, aleatório

- Boa noite!

Cumprimentei uma senhora que me ignorou solenemente, 

como quase sempre acontece com quem cumprimenta alguém nas ruas...


A Asa Norte tem umas coisas!...

Sentires em Liquefação

Sonhos perdidos?

Traumas?

Memórias exulcerantes?

Escolhas?

Abraços desfeitos?

O que faz pesar um lágrima?

Saudades?

Silêncios represados?

Medos?

Amores silenciados?

Que peso carrega uma lágrima?

E em que instante, de tão pesada, precipita cálida, dos olhos, 

como alguém que, pela atávica necessidade de liberdade, 

foge de algum lugar, 

deixando todo o peso para trás e, sem malas ou dúvidas, 

se vai, para nunca mais voltar?

Gosto do entardecer

Eu gosto da sensação estranha que o entardecer me traz

Esse estado de alma melancólico e doce como cheiro de banho tomado

Nesse limiar entre dia e noite, o entardecer

A constatação de que, peremptoriamente, o dia está se exaurindo de luz 

e a noite é uma imanência

O entardecer:  instante de suspensão entre angústia e sossego

As sombras do tempo que passa,

cães passeando com tutores guiados por celulares, 

os sons das ruas, a trabalhadora apressada que vai para o ponto de ônibus, 

crianças saindo da escola, alguém indo à padaria da esquina, 

carros nas pistas da vida que vai e vem,

atletas correndo em exercício, pessoas em suas casas, os pássaros nas árvores,

gente caminhando em calma mente...

As cores e cheiros do entardecer me conduzem para um não-lugar: 

entre aquilo que não fui e aquilo que não sei o que serei, 

sou o espaço-tempo daquilo que estou deixando de ser

É em vão tentar traduzir o que nem mesmo consigo entender...

Só sei dizer e sentir que, nessa hora, também entardeço dentro em mim

No vão entre idiossincrasias e palavras alguma coisa se vai com as horas. 

Que horas são? 

Não sei ao certo porque, mas,  

Eu gosto do entardecer.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Atravessamentos

Acordar e sentir o sol amanhecendo o dia dentro de você

Travesseiros macios, lençóis quentes, 

confusão na cama e em minha ordem interior

e o tempo se vai lento, assim, cheio de preguiça e de manha...

De manhã,

Tudo desorganizado...

Bagunçado, perturbados pelos nossos significados em você, em mim

Em todos os sentidos

Sequiosos em voltar a viver a experiência do (re)encontro conosco em nós

Nós dois, um laço,

Somamos assim:

um mais um são quarto

Prosa e poesia entrelaçadas na trama do desejo  

No silêncio cúmplice dos corpos trêmulos, suados, em êxtase febril

coisas são ditas para serem sentidas, não entendidas

Somos afins

ÓDIO OU TRISTEZA?

Fico pensando como deve ser viver sem medo

de ser assassinado pelo Estado racista.

Fico pensando como deve ser viver sem ser avaliado

pela textura do cabelo, pela cor da gengiva...

Fico pensando como deve ser a vida sem ter o caráter, a competência, 

a honestidade medida a partir do tom da pele, pelo formato do nariz...

Fico pensando como deve ser viver sem medo 

de ser confundido com um criminoso 

Fico pensando como deve ser viver...

Fico pensando...

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Banana na fruteira ou a efemeridade do tempo em desespero

Tudo apodrece.
O corpo
As horas
A flor do ipê
As certezas 
A espera de alguém
A melancólica banana na fruteira
O domingo na praia
A dama da noite que plantei e não vingou
O desejo
A vida cheia de viço

Nem sempre fétido
Nem sempre nítido
Nem sempre óbvio
Tudo, tudo já morreu
ou apodrece